
Quero ser cineasta
Jun 6, 2007
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Depoimento de um ex-estudante de cinema sobre o que é ser estudante de cinema Por Katia Kreutz* Não é de hoje que existe polêmica sobre como se deve aprender a fazer cinema. Em qualquer campo criativo, a função do instru...
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Published Jun 6, 2007.
Depoimento de um ex-estudante de cinema sobre o que é ser estudante de cinema Por Katia Kreutz* Não é de hoje que existe polêmica sobre como se deve aprender a fazer cinema. Em qualquer campo criativo, a função do instrutor é apresentar técnicas e possibilidades artísticas e de reflexão que ajudem a desenvolver o talento do artista. Arte e técnica são inseparáveis. Na criação de filmes, não é diferente – há muito o que se aprender. Mas até que ponto uma escola de cinema pode atender às expectativas do aspirante a cineasta, no sentido de inserí-lo no mercado de trabalho? O que exatamente pode oferecer? De acordo com a Wikipedia, enciclopédia virtual, uma escola de cinema (ou film school) pode ser definida como o “termo genérico para qualquer instituição educacional dedicada ao ensino da técnica cinematográfica, incluindo, mas não se restringindo à produção de filmes, teoria e roteiro”. Parece simples, mas cada palavra dessas: “técnica”, “produção”, “teoria” e “roteiro” tem um mundo enorme por trás de si. Nos Estados Unidos ou na Europa, os programas de filmmaking incorporam em seus currículos treinamento prático, como aprender a usar uma câmera ou software de edição. No Brasil, a maioria dos programas de cinema de nível superior abrem uma parte significativa da carga horária também para teoria. Enquanto o gênio, ou talento (ou como quer que se chame uma pré-disposição natural para fazer algo bem feito) em geral nasce com a pessoa, a técnica para seu aperfeiçoamento precisa ser apreendida. Embora uma escola de cinema não seja capaz de transformar de um momento para outro um aluno no próximo David Lynch, ela pode e vai lhe ensinar enquadramento, continuidade, montagem, iluminação, e uma série de outras técnicas úteis em qualquer set de filmagem do mundo profissional. Para quem quer se especializar, esse conhecimento técnico é indispensável e alguma qualificação é essencial. Como se aprende o ofício – se numa escola, ou como autodidata – é outra questão. Se por um lado, diretores como Martin Scorcese, Francis Ford Coppola e George Lucas vieram de renomadas escolas de cinema (NYU, UCLA, USC), outros cineastas premiados como Quentin Tarantino e Paul Thomas Anderson nunca tiveram nenhum tipo de educação formal. Não há receita para se chegar ao topo. Como o cinema aparenta ser um universo tão atraente, é óbvio que tem muita gente querendo trabalhar nele. Os obstáculos para se entrar nessa área são muito maiores do que se imagina. É difícil conseguir uma chance, mesmo para os mais talentosos. Uma das vantagens das escolas, é que fazer parte de um programa de cinema possibilita que se crie uma rede de contatos, sejam com professores (profissionais da área) ou ex-alunos que agora atuam profissionalmente. Os colegas de classe também são uma fonte valiosa de conexões. Ao longo de um curso extensivo você faz parceiros que podem se tornar seus futuros colaboradores e colegas de equipe. Se eventualmente um desses colegas for bem sucedido, você ainda corre o risco de ser contratado por ele. Mesmo durante o curso, o retorno que se recebe de professores e colegas, pessoas com um olhar apurado, é sofisticado e inteligente. Essas são as pessoas irão ajudá-lo a melhorar o seu trabalho, de modo que, com alguma perseverança e boas idéias na cabeça, você possa se tornar um cineasta competente e quem sabe um dia – famoso. É quase impossível encontrar um grupo de pessoas com essa consciência fora de um ambiente escolar. As dicas e conselhos desse público específico podem ser úteis para o resto de sua carreira. Além disso, bons professores tendem a incentivar o aluno a trabalhar duro e a conseguir o melhor de si, ousar mais do que ele ousaria sozinho, fazendo filmes com seus amigos. Mesmo para aqueles que pretendem criar filmes experimentais de linguagem inovadora, ignorar que existe uma história e teoria do cinema para se aprender é ingenuidade. Há sempre alguém que sabe mais do que você, e com quem você certamente poderia estar aprendendo a realizar um trabalho mais consistente e interessante. No cinema, ter um diploma ou certificado não parece ser tão importante como em outras profissões. De qualquer forma, a indústria vê com bons olhos os jovens profissionais que se formaram em instituições de qualidade, com profissionais respeitados. A credibilidade ajuda o iniciante a se estabelecer no mercado. Interessa também o que você realizou. Para isso é necessário tempo e dedicação, além de uma porção de equipamentos que não são nada fáceis de se obter a preços módicos. Se você opta por uma escola de cinema que lhe ofereça toda essa estrutura, de quebra poderá contar com um grupo de colegas com os mesmos objetivos, dispostos a levar o projeto adiante. É muito difícil fazer tudo por conta própria, por mais independente que você seja. Uma escola lhe oferece o espaço para colocar suas idéias em prática. E acima de tudo, uma escola lhe permite errar. Fazer e refazer. Oferece continuidade, a segurança de apostar na carreira, já que você investiu esforço, tempo e dinheiro nisso. Por que não usar o dinheiro que você gastaria num longo curso de cinema para comprar sua própria mini-DV e um potente Macintosh? Porque uma escola é muito mais do que as maravilhas tecnológicas a que você terá acesso. É a possibilidade de trabalhar com película sem culpa, ter estúdios apropriados ao invés do quintal da sua casa, e principalmente contar com a orientação de quem entende do assunto. São essas as únicas pessoas capazes de mediar seu ego, que já alcança proporções cinematográficas mesmo quando você ainda está se aventurando em filminhos de celular. Uma escola de cinema também dispõe de um acervo de livros e filmes que você nunca encontraria na locadora da esquina. E essa mesma escola vai tentar divulgar seu trabalho além do seu círculo de amigos, em exibições e festivais que tragam visibilidade a pequenas experiências cinematográficas que em geral seriam simplesmente ignoradas. Afinal de contas, ninguém faz filmes apenas para receber os elogios da própria mãe. Aprender fazendo – pode ser uma faca de dois gumes. Se a Internet e o cinema digital oferecem a qualquer um a chance de fazer filmes, também estimulam a proliferação de lixo. Aprenda fazendo, mas aprenda com quem sabe o que está fazendo. O futuro do cinema no Brasil e a própria criação de um mercado auto-sustentável dependem de agitadores culturais, de pessoas ou instituições que incentivem a produção cinematográfica. Em resumo, a não ser que você se considere o novo Tarantino, escolha uma boa escola de cinema. * Katia Kreutz formou-se nos Programas Anuais de Cinema da AIC, Filmwoks e Craft, e dirigiu os curtas-metragens Linhas, Artefato Violento e Ininterrupto.
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